Em artigo, ex-deputada federal e candidata à Câmara pelo Rio de Janeiro compara o cenário político e jurídico brasileiro a uma partida em que “o juiz também joga”
A ex-deputada federal Cristiane Brasil, candidata novamente a uma vaga na Câmara dos Deputados pelo Democracia Cristã do estado do Rio de Janeiro, publicou um artigo no qual faz duras críticas à atuação de integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) e questiona a condução de investigações envolvendo autoridades dos Três Poderes.
Intitulado “Quem segura o cartão quando o juiz também joga?”, o texto utiliza metáforas do futebol para sustentar que instituições responsáveis por arbitrar conflitos políticos teriam passado a participar diretamente das disputas.
Na avaliação de Cristiane Brasil, decisões judiciais, inquéritos, relatórios de inteligência e o comando da Polícia Federal teriam se transformado em instrumentos de uma disputa pelo controle do Estado. Para ela, o “cartão vermelho” mais grave não seria aquele que afasta temporariamente uma autoridade, mas aquele capaz de retirar adversários da vida pública.
A ex-deputada cita como exemplo a decisão do ministro Alexandre de Moraes que, em 2020, suspendeu a nomeação de Alexandre Ramagem para a direção-geral da Polícia Federal. Cristiane também recorda episódios ocorridos a partir de 2021, como a prisão de seu pai, o ex-deputado Roberto Jefferson, a prisão do ex-deputado Daniel Silveira e o bloqueio de suas próprias redes sociais durante dois anos.
Segundo ela, esses acontecimentos revelariam a consolidação de um modelo no qual decisões individuais de ministros passaram a produzir consequências políticas profundas.
Embate dentro do Supremo
O artigo também aborda um suposto embate institucional envolvendo os ministros André Mendonça, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Flávio Dino e Luiz Fux, além da Procuradoria-Geral da República, da Advocacia-Geral da União e da direção da Polícia Federal.
Cristiane Brasil afirma que Mendonça teria passado de investigador a investigado depois de determinar a apuração de informações encontradas em dados extraídos do telefone do banqueiro Daniel Vorcaro. Na interpretação da autora, as reações ao trabalho do ministro demonstrariam uma tentativa de interromper investigações que poderiam alcançar integrantes do próprio sistema de Justiça.
A ex-deputada também questiona a utilização de relatórios de inteligência da Polícia Federal no âmbito do Inquérito 4.781, conhecido como Inquérito das Fake News. Para ela, documentos sem elementos formais suficientes estariam sendo empregados para sustentar acusações contra o ministro André Mendonça.
Ao longo do texto, Cristiane compara a disputa a uma partida de futebol: Mendonça avançaria com as investigações, enquanto outros ministros atuariam para impedir a continuidade do processo. Ela considera que não seria necessária a existência de uma ação formalmente coordenada, pois a convergência de diferentes movimentos institucionais produziria o mesmo resultado.
Críticas ao governo Lula
A ex-deputada federal também relaciona o embate institucional ao cenário eleitoral e ao que classifica como enfraquecimento político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
De acordo com sua análise, o silêncio de ministros e lideranças do campo governista não representaria prudência, mas uma tentativa de evitar o desgaste provocado pela perda de apoio popular. Cristiane sustenta que a disputa dentro do STF já não estaria limitada ao conteúdo das investigações, mas envolveria o controle de relatorias, da Polícia Federal e do próprio ritmo das decisões judiciais.
Ela ainda aponta uma suposta diferença de tratamento entre os governos Bolsonaro e Lula. Como exemplo, menciona que a competência constitucional do presidente da República para nomear o diretor-geral da Polícia Federal não impediu a suspensão da indicação de Ramagem, em 2020, mas estaria sendo invocada agora para defender a permanência de autoridades nomeadas pelo atual governo.
Na visão da candidata, regras institucionais estariam sendo interpretadas de maneiras diferentes conforme o grupo político atingido.
Alerta para novas medidas repressivas
Na parte final do artigo, Cristiane Brasil afirma temer uma nova sequência de inquéritos, bloqueios e medidas restritivas contra pessoas que criticam integrantes das instituições.
Ao recordar os episódios envolvendo Roberto Jefferson, Daniel Silveira e suas próprias redes sociais, ela declara reconhecer os sinais de um modelo que, em sua avaliação, já teria sido utilizado para silenciar adversários.
A metáfora do cartão vermelho encerra o texto. Para Cristiane, um cartão pode retirar determinada autoridade do cargo, enquanto outro, aplicado por meio de decisões judiciais e investigações prolongadas, seria capaz de afastar adversários da vida pública.
“A falta está filmada. A briga agora é outra: quem segura o cartão quando o juiz também joga?”, questiona Cristiane Brasil.
As afirmações apresentadas no artigo representam a análise política e pessoal de Cristiane Brasil sobre a atuação do Supremo Tribunal Federal, da Polícia Federal, do governo federal e das demais autoridades mencionadas.
Segue o artigo de autoria da ex-deputada federal, Cristiane Brasil:
Quem segura o cartão quando o juiz também joga?
O Brasil é o país do futebol. Aqui todo mundo entende expulsão, carrinho por
trás e árbitro que guarda o cartão no bolso conforme o uniforme. Por isso a
pergunta não é enfeite. Há um jogo em campo, há quem dispute o apito, e o
vermelho mais grave não é o que tira um diretor da Polícia Federal. É o que,
desde 2021, tira adversários da vida pública.
Numa guerra civil convencional, o mapa começa pelos quartéis e pelas sedes
de governo. No Brasil, o mapa é outro. Os territórios são relatorias, inquéritos,
órgãos de inteligência e o comando da PF. As armas são relatórios sigilosos e
decisões monocráticas. Mudaram os objetos. O propósito não mudou:
conquistar o Estado por dentro e retirar do adversário a capacidade de reagir.
Essa guerra não nasceu no celular de Daniel Vorcaro. Nasceu quando um
gabinete passou a mandar na polícia, nas redes e no destino de quem ousava
falar.
Em 2020, Jair Bolsonaro indicou Alexandre Ramagem para a direção-geral da
Polícia Federal. Alexandre de Moraes suspendeu a nomeação. O Supremo
aprendeu que podia vetar o chefe da polícia do presidente da República. Em
agosto de 2021, a máquina saiu do papel e foi para a carne. Meu pai, Roberto
Jefferson, foi preso por ordem de Moraes. Daniel Silveira, de Petrópolis, foi
calado e enjaulado. Eu, Cristiane Brasil, fiquei dois anos sem redes sociais.
Não por plenário da República, mas por decisão de um único homem. A toga
virou porta de cadeia e botão de silêncio.
Cinco anos depois, o mesmo método reaparece com outro alvo. André
Mendonça não escolheu Moraes como caça. Mandou identificar quem aparecia
nos dados extraídos do telefone de Vorcaro.
Moraes estava lá porque o banqueiro falava com ele, porque o contrato da
esposa existia, porque o pedido de proteção citava Andrei e Gonet. A
prova nasceu da apreensão.
A resposta do outro campo foi instantânea. Moraes requisitou relatórios de
inteligência da PF e os enfiou no Inquérito 4.781. Um documento sem timbre,
sem assinatura e sem valor probatório declarado serviu para acusar Mendonça
de abuso, improbidade e crime de responsabilidade. O investigador virou
investigado. Gilmar Mendes pediu vista na Segunda Turma e tentou ganhar
noventa dias — tempo que atravessa a eleição. E ainda soltou a frase que
define o caráter do momento: “pelas regras, você não faz pacto com
chantagista. Ou você mata ou morre.” Num tribunal, o decano fala a língua da
sobrevivência a qualquer custo. Quem apresenta prova vira chantagista. Quem
resiste precisa ser eliminado politicamente.
Flávio Dino completou o lance. Mendonça corria com a bola no pé, na direção
do gol: o relatório de 218 páginas, as mensagens, o contrato, o afastamento do
diretor da PF. Dino deu o carrinho. Não foi desarme limpo. Foi entrada por trás,
com o juiz da partida no chão. Arrastou a regra e a ideia de que ainda havia um
árbitro acima dos times. Moraes acusa. A inteligência da PF entrega o dossiê.
Lula se posiciona para chutar, mas devolve para Dino, que fecha o espaço.
Gilmar congela o placar. A AGU corre a Fachin. Não é necessário um papel com
o título “golpe”. Basta a convergência.
Tudo isso existe para conter o derretimento de Lula. Mentir ficou difícil. O 7 de
Setembro deste ano denunciou o vazio: a parada militar do governo não lotou
de mortadela. Não há petistas históricos indo a público. Lula faz declarações
vagas e ambíguas. É tudo ou nada. Haddad cala. Boulos cala. Ministros calam.
As estrelas candidatas se afastam para não afundar. Silêncio, neste caso, não é
prudência. É fuga.
A luta interna no tribunal já não é sobre o conteúdo do celular de Vorcaro. É
sobre quem vai apitar o fim do jogo e declarar o vencedor. Quem fica com a
relatoria. Quem manda na PF. Quem decide se Andrei volta. Quem enterra
Mendonça antes de outubro. A regra vale para prender Jefferson, silenciar
Silveira, apagar minhas redes por dois anos e julgar Bolsonaro numa turma de
cinco. A regra some quando o placar ameaça o próprio campo.
A PGR descobriu o sistema acusatório no dia em que o material atingiu Moraes
e Gonet. Três dias depois, o rigor mudou de direção. A Polícia Federal leu o
celular de um investigado e encontrou autoridades; no movimento inverso, a
inteligência escolheu o ministro e o advogado-geral como objeto — decisões,
reuniões e até “matriz religiosa”. O primeiro texto nasceu da prova. O
segundo nasceu da necessidade de parar o relator.
Mendonça afastou Andrei Rodrigues e Leandro Almada para que os acusados
de produzir o dossiê não continuassem no comando da estrutura que deveria
ser apurada. Mostrou o cartão vermelho ao chefe da polícia do presidente. A
AGU pediu a Fachin que anulasse a expulsão. O artigo 84, que não impediu
Moraes de barrar Ramagem em 2020, agora serve para devolver o cargo ao
indicado de Lula. A Constituição é flexível quando o ocupante da cadeira muda
de sobrenome: de “Bolsonaro” para “da Silva”.
Lula é aconselhado a convocar o Conselho da República, a reunir-se com
Fachin, a tirar de Mendonça as relatorias do Master e do INSS. O órgão
previsto para opinar sobre estado de sítio entra na conversa no instante em que
a pesquisa mostra risco de derrota. Ninguém anuncia o rompimento da ordem.
Declara-se a urgência de protegê-la.
Fux pediu Casa cheia no julgamento de Bolsonaro e foi voto vencido. Na
Segunda Turma, não pediu plenário. Votou, fechou maioria com Mendonça e
Kassio, e deixou Gilmar segurar o relógio. Plenário era princípio quando a
turma era do outro. Turma basta quando a turma é sua.
O que vem a seguir? Se 2021 servir de manual, vem repressão de novo. Vem
inquérito. Vem bloqueio. Vem o dossiê contra o próximo que falar. Eu vi esse
manual de perto. Vi meu pai preso. Vi Daniel Silveira desaparecer da vida
pública. Vi duas contas minhas virarem silêncio. Quem já foi calado reconhece
o som da porta fechando — mesmo quando a fechadura vem com carimbo do
Supremo.
O cartão que Mendonça tirou do bolso é vermelho e tem nome: Andrei. O outro
cartão não precisa de nome. Circula desde 2019, dura o quanto o inquérito
quiser e não pede replay. Um expulsa o jogador de campo. O outro expulsa o
adversário do país. Por isso o segundo é mais vermelho. A falta está filmada. A
briga agora é outra: quem segura o cartão quando o juiz também joga
Por Cristinane Brasil.

